A nascente sociedade urbana da Vila de Entre-Rios e o lugar dos escravos libertos e seus descendentes. – 3ª parte.

O futebol se fez presente no Brasil pelas mãos dos ingleses que vieram para a implantação da malha ferroviária como alternativa de lazer para a elite branca brasileira e não para os negros recém libertos; mas quando foi acomodado pelas classes populares este esporte passou a ser mestiço, negro e “brasileiro”. Existem pesquisas que estabelecem a presença dos negros em equipes de futebol amador já no início do século XX.

Fotografia 1: Registro externo dos jogadores do América Futebol Clube nesta fotografia publicada no jornal O Cartaz no seu ano II, de 28 de abril a 4 de maio de 1973, nº 86. Original de 1929, sem autor conhecido, do acervo André Mattos.

A primeira representação imagética conhecida de jogadores negros em uma equipe de futebol da cidade é datada de 17 de novembro de 1929, quando da realização do jogo entre o América Futebol Clube e o Riachuelo Esporte Clube, tradicional equipe auriverde da cidade de Paraíba do Sul/RJ, que terminou com o placar de 2 x 1 para os rubros de Entre-Rios.

Relacionam-se na fotografia os jogadores, estando em primeiro plano sentados: Santinho, Hélio – goleiro -, e Pinhal com o mascote da equipe Sebastião Guilherme Dias, o “Cici” à frente. Ajoelhados: Nico Couto, Teófilo e Silvio “Malandragem”. Em pé ao fundo da esquerda para a direita: o Srºs Aparício de Freitas, Darci César Guimarães (de terno branco) e Antônio Martins, os jogadores Manoel Duarte e Coutinho Junior, a madrinha Maria Cantuária de Araújo, o presidente do clube, Mariano Aguiar, os atletas Batoque, Chaves e José Manoel e por último, segurando uma bandeira, o Srº Josino de Carvalho.

Fotografia 2: Registro externo da equipe de futebol do Entrerriense Futebol Clube da década de 1930, onde se percebe a presença de alguns jogadores negros; da esquerda para a direita tem-se: Bertolino, Tamanduá, Fortunato, Licirio, Zé Coruja, Sapo, Gradim, Ayres, Bira, Jobal e Manoel. Em primeiro plano Habib Obeica e a madrinha do clube a Srta. Balbina Santos Gomes. Fotografia publicada no jornal “O Cartaz” no seu ano I, de 8 a 14 de janeiro de 1971, nº 19. Sem autor conhecido, do acervo André Mattos.

Observado a presença de negros entre os jogadores de futebol das equipes de Entre-Rios, o mesmo não ocorre entre os diretores dos clubes da cidade. Qualquer posição onde se determine algum tipo de poder, principalmente os econômicos e políticos, a presença dos afrodescendentes acontecia raramente. Entendo que esta realidade reflete nas redes de relação social, o lugar determinado a estes indivíduos, alijados das condições necessárias para figurar junto aos representantes das classes comerciais, industriais e financeiras, onde a presença dos brancos é mais evidente.

Pesquisar a participação de determinados grupos em variadas atividades permite mensurar a ocorrência das desigualdades nas ocupações sociais, definindo-se assim as zonas de segregação que ocorrem nos espaços urbanos. E esta condição aparece nas diversas formas de diálogos e registros, como por exemplo, nos escritos dos jornais e nos livros dos primeiros historiadores da cidade de Três Rios/RJ, utilizados nesta pesquisa. Pouco da participação dos negros é referendado.

Fotografia 3: Registro realizado em 2 de junho de 1930, durante a inauguração do atual campo de futebol do Entrerriense Futebol Clube, com a solenidade de benção e o corte da fita inaugural. Sem autor conhecido, esta fotografia foi publicada, na revista do Jubileu de Ouro do Entrerriense Futebol Clube, de 1975, do acervo André Mattos.

Nesta imagem temos da esquerda para direita: Quintino Pinto Álvares, Jacinto Sobrinho (atrás deste), Pedro Chimelli (ao fundo), Manoel Ferreira de Souza Neto (Manoelito, de terno branco), Vitorino Martins (ao fundo), o Padre Antonio Rossi, Horácio da Silva Braga (segurando o que parece ser uma vela), José da Silva Leal (também ao fundo), Balbina Santos Gomes (madrinha), Guilherme Bravo, Clodoaldo de Carvalho, Salim Chimelli (ao fundo), Ciro Marini, Mariano de Aguiar e Pedro Caldas. Destaca-se em primeiro plano o pequeno coroinha ao lado do padre. Alguns destes nomes estão entre os presentes nas fotografias referentes aos espaços da arte e do comércio apresentadas nas publicações anteriores.

O Historiador trirriense, Hugo José Kling, nas suas obras publicadas em 1969 e 1971, além de aspectos relacionados à formação urbana da cidade e seus monumentos, apresentou biografias dos “principais” moradores, um apanhado de artigos publicados nos jornais da cidade com características da historiografia positivista: são nomes e sobrenomes que representam uma parcela representativa dos comerciantes, industriais, profissionais liberais, religiosos e professores; personagens que figuram nas imagens fotográficas como as que neste trabalho são apresentadas.

Fotografia 4: Registro da diretoria, realizado diante da primeira arquibancada do estádio de futebol do Clube Entrerriense na Rua Marechal Deodoro no centro de Entre-Rios, com os degraus de madeira, em 18 de dezembro de 1933. Presentes nesta fotografia publicada no jornal “O Cartaz” de 5 de abril de 1974, na sua edição de nº 133, em pé ao fundo da esquerda para a direita: Julio Assumpção, Virgílio Torno, Pedro Caldas, Manoel da Rocha Pinto, Custódio José Martins, Namitala Hagge, Henrique José Marinho; e no primeiro plano sentados, também neste mesmo sentido: Theobaldo Rocha, Jacinto Sobrinho, Balbina dos Santos Gomes (madrinha do clube), Pedro Paulo Rodrigues Caldas e Mariano Aguiar. Sem fotografo determinado, do acervo André Mattos.

Uma única figura fugiu a esta condição: Camila, escrava de Mariana Claudina, que recebeu por desejo testamentário da Condessa do Rio Novo, uma casa em Entre-Rios em usufruto e a quantia de um conto de réis. “Camila foi uma escrava, mas foi também um ser humano e cristão.” (KLING. 1973, p. 46) Filha de um português – Augusto, e de uma escrava – Tônia, “a criança era clarinha e crescia robusta e linda”. (KLING. 1973, p. 57)

É interessante a tentativa de se “adequar” um “espaço” para Camila na história da cidade ao minimizar sua condição étnica nos termos: “um ser humano e cristão” e “criança clarinha”.

“Afinal, em agosto de 1835 é que Tônia e Camila entraram para o serviço do novo Sinhô na Fazenda da Boa União, onde à época se movimentavam mais de oitenta escravos de ambos os sexos, sem contar as crianças.

Tônia foi para a senzala e dali por diante, com outras escravas, participaria de todos os trabalhos, quer na capina da lavoura, que na apanha do café.A futura Condessa do Rio Novo, de pronto simpatizou com a mulata Camila, que regulava a sua idade e mais encantada ficou quando soube que sua nova escrava sabia ler e escrever, pois ela destinava-a a ser sua companheira na Fazenda, já que, havia decorrido mais de três anos, depois do seu casamento, sem que tivesse filhos.” (KLING, Hugo José)

A figura de Camila permanece até nossos dias apenas pela presença de seu nome no testamento da Condessa e, conforme afirma Hugo Kling (1971, p. 77) na tradição oral das histórias do “preto Bentão” falecido em idade avançada, mas que não recebeu também, maiores identificações, apesar deste autor afirmar que recolheu deste informações preciosas para os seus escritos.

“Refletir o trauma social (…) significa pensar tal memória dentro das redes de poder que as definem, recortam, delimitam elegendo critérios do que lembrar e por sua vez narrar e do que esquecer e silenciar, definindo assim linhas de interpretações da História que se deseja elaborar.” (DIETRICH, Ana Maria)

Fotografia 5: Registro externo relacionado às comemorações pela instalação do novo município de Entre-Rios. Artigos em jornais da época informam sobre uma festa popular – um grande churrasco -, realizado no campo do Entrerriense F. C.. Observa-se na fotografia a presença de homens e mulheres, adultos, jovens e crianças, brancos, negros e mulatos. Sem autor determinado, do acervo do Srº Altair.

Este pensar o conceito do poder de exclusão e silenciamento de memória pode ser aplicado aos aspectos sociais da história dos negros na pós-escravidão no Brasil, pois o esquecimento e as escolhas quanto ao que deve ser lembrado demarcam a memória coletiva e a construção da identidade deste grupo, que no casso deste trabalho, tem presença importante na formação cidade de Três Rios/RJ.

Rompendo o silêncio imposto ou os impedimentos a leitura deste discurso, as fotografias narram experiências sensíveis, aspectos das relações sociais, colaborando para a compreensão da vida desta comunidade étnica, sugerindo espaços de rupturas e continuidades, mesmo representado pelo olhar de outro grupo social. Quando os referentes fotográficos abarcam as atividades sociais nos espaços públicos da cidade, os indivíduos negros e mulatos aparecem em manifestações diversas, como expressos nas imagens 5 e 6.

Fotografia 6: Registro externo também referente à festividade descrita na fotografia anterior. Sem fotógrafo definido, do acervo do Srº Altair.

Porém, quando as imagens fotográficas destacam algum grupo do restante da população, seja por representação econômica, política ou religiosa, não se encontram nos registros a presença de indivíduos negros, conforme as fotografias a seguir analisadas.

Fotografia 7: Registro externo realizado na Praça São Sebastião, possivelmente quando da inauguração do prédio da Prefeitura Municipal de Três Rios em 1943, identificando-se entre o grupo que se destaca no primeiro plano ao centro: João Pedro da Silveira (primeiro a esquerda) e ao seu lado o Prefeito Walter Gomes Francklin, e entre as mulheres, encontra-se ao centro destas, e a professora Alva Coutinho Carvalhido, única mulher até o presente momento eleita vereadora em Três Rios. Sem
fotógrafo conhecido, do acervo Srº Altair.
Fotografia 8: Registro externo de uma atividade cívica em homenagem ao dia da árvore, realizada na Praça da Autonomia, onde se tem a presença de alunas de escolas do município (no primeiro plano a esquerdas jovens terminando o plantio de uma muda, acompanhada possivelmente por uma professora). Identifica-se na fotografia: terceiro da esquerda para direita o Prefeito Walter Gomes Francklin, adiante a segunda mulher com vestido branco, Alva Coutinho Carvalhido e os dois últimos, João Pedro da Silveira e Aquilas Coutinho. Fotografia do início da década de 1940, sem autor definido, do acervo André Mattos.

Pierre Bourdieu, escreveu que para ele:

A fotografia é um objeto que me interessou. Considerei, naturalmente, o fato desta ser a única prática com uma dimensão artística acessível a todos e de ser o único bem cultural universalmente consumido. Achei, assim, que, por meio desse desvio, conseguiria desenvolver uma teoria geral da estética. Era algo, ao mesmo tempo, muito modesto e muito ambicioso. É corrente dizer que as fotografias populares são horríveis etc. Eu queria, em primeiro lugar, entender por que razão isso é assim e, em segundo, tentar explicar, por exemplo, a frontalidade dessas imagens e o fato de nelas revelarem-se relações entre pessoas e uma série de coisas que indicam a medida de sua necessidade e que, por isso, têm o efeito de reabilitá-las. E então decidi analisar uma coleção de fotografias que pertenciam a Jeannot, um amigo de infância: examinei-as uma a uma e embrenhei-me nelas. Parece que encontrei muita coisa nesta caixa de sapatos.

Uma das razões desta paixão que nutro pela fotografia, também está no fato de “nelas revelarem-se relações entre pessoas”, de demonstrarem as demarcações nos espaços de relações sociais construídos nos embates de poder e memória, de “possuírem” histórias silenciadas, que aguardam serem retiradas da “caixa de sapatos.”

Referências:

BOURDIEU, Pierre e BOURDIEU, Marie-Claire. “O camponês e a fotografia”. Rev. Sociol. Polít., 26. (2006): 31-39.

DIETRICH, Ana Maria. Percurso de memória(s) traumática(s) da II Guerra Mundial. Disponível no site: http://pt.scribd.com/ana_diet/d/63676819-PERCURSOS-DE-MEMORIA . Acesso em 11 de out. de 2011.

KLING, Hugo José. Cinzas que Falam. Juiz de Fora/MG, 1ª Edição, Sociedade Propagadora Esdeva – Lar Católico – 1971

HOW DO THE GENERAL MEDIA PLAY THEIR PART IN EDUCATION?

Schoolchildren and adolescents are not ‘educated’ by schools only. Families, churches, friends, and the media are also sources of educational influence which impact on the teaching and learning processes. These social influences end up adding to the student’s educational background.

In this sense, The Brazilian National Curriculum Parameters (1997) state that ‘all communication stuff renders a source of information’. Information can be spread through print, electronic or digital means. Regarding their massive social use, information and communication channels aim to make public information content related to people’s day-to-day social contexts.

Our blog | World Cancer Research Fund International
Source: Our blog | World Cancer Research Fund International

The general media play their part in the schooling setting, above all, in materials traditionally addressed to ‘didactic” use, also known as ‘teaching resources’. Among these materials, there are those which are produced for specific purposes. They are oriented and designed by following their own criteria with theoretical and pedagogical grounds. They are organized into work units aimed at a particular area of ​​knowledge in order to allow for educational work in schools.

Textbooks are considered the most influential media in Brazilian schools and it is up to teachers and schooling institutions to check out the factors that correspond to such predominance. According to Brazilian education philosopher Saviani (1997), textbooks can be a significant  support for teachers’ actions as long as they are not taken as the ‘great instructor’ in the classroom.

Saviani remarks that teaching support materials are very important. However, they are resources, they are instruments and they do not replace educational agents; ‘instruments are, since the origin of humanity, sought in the sense of maximizing, potentializing human actions’. Hence, the original definition of an ‘instrument’: ‘the extension of human arms’ (SAVIANI, 1997, p. 68). In terms of pedagogical methods, contents and practices, instruments cannot serve educators as their ‘private’ educational formula for promoting teaching and learning.

Oral Health Teaching Tools | Delta Dental of Michigan
Source: Oral Health Teaching Tools | Delta Dental of Michigan

Unlike to that, the use of textbooks in the classroom implies regular critical work  analysis by both teachers and students. Teachers must often engage their students in discussions, and have them analyze every piece of information brought by any teaching materials. In this way, students will be capable of relating any information to their own settings as well as to the real conditions of the society they belong to. North-American critical educator Giroux (1997) assumes that the print and audiovisual media foster readers to  criticize, analyze, infer and interpret the (un)veiled reality.

In sum, it is important that teachers’ practices engage properly in the media use – both those with specific purposes and those of general use – with well-defined purposes and objectives. The educational use of the general media in teaching needs to go beyond the common-sense notion that they sort of play the role of ‘facilitators’ in education. It is quite the opposite since by integrating the media into teaching and learning it is needed, more than ever, to work within students’ mental faculties of reason and criticality.

Paying Teachers to Perform: The Impact of Bonus Pay in Pernambuco, Brazil
Source: Paying Teachers to Perform: The Impact of Bonus Pay in Pernambuco, Brazilblogs.worldbank.org

REFERENCES:

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais. Brasília, DF: MEC; SEF, 1997.

GIROUX, H. Os professores como intelectuais. Porto Alegre: Artmed, 1997.

SAVIANI, D. Brasil: educação para a elite e exclusão para a maioria. Comunicação e Educação, São Paulo, v. 8, p. 63-77. jan./abr. 1997.

IMAGES:

Available at: https://www.wcrf.org/

Available at: https://www.deluxedentalusa.com/

Available at: https://blogs.worldbank.org/education/paying-teachers-to-perform-the-impact-of-bonus-pay-in-pernambuco-brazil

A ORQUÍDEA E A NÁUSEA

Em 1938, quando a ameaça nazista já se agiganta nas fronteiras, Jean-Paul Sartre publica seu primeiro romance, “A Náusea”. Seu protagonista, Antoine Roquentin, sofre de uma contínua náusea, causada por um crescente estranhamento da realidade cada vez mais absurda. Apenas a arte – a escrita de um diário, o êxtase de ouvir Ella Fitzgerald cantando Some of these days – só a arte se apresenta como ponto de fuga ao desconcerto do mundo. 

Entre 1943 e 1945, no auge da segunda guerra mundial, Carlos Drummond de Andrade escreve o livro “A Rosa do Povo”, em que há um poema intitulado “A Flor e a Náusea”. Nele, o eu-lírico caminha pela “rua cinzenta” da capital do país, onde “melancolias, mercadorias espreitam-me”, e ele se pergunta se deve “seguir até o enjoo”, sem armas para revoltar-se, ansioso por “vomitar esse tédio sobre a cidade”. Nisso, ele se depara com uma flor que nasce na rua, furando o asfalto, rompendo “o tédio, o nojo e o ódio”. Mais adiante, nesse mesmo livro, quem luta para abrir caminho num ambiente claustrofóbico é um inseto, no poema “Áporo”:

Um inseto cava / cava sem alarme / perfurando a terra / sem achar escape.

Que fazer, exausto, / em país bloqueado, / enlace de noite / raiz e minério?

Eis que o labirinto / (oh razão, mistério) / presto se desata:

em verde, sozinha / antieuclidiana, / uma orquídea forma-se. 

Depois de ler “A Flor e a Náusea”, não é difícil perceber esse inseto como metáfora da pessoa que enfrenta uma situação difícil, alguém que se encontra num beco sem saída. Lembrando “A Náusea”, de Sartre, como não relacionar a imagem do “país bloqueado” com a França sob ocupação nazista e o mundo sob tal ameaça? Os dicionários concordam que Áporo, do grego aporos, significa “difícil, sem saída”. Mas o Caldas Aulete, em sua versão original, acrescenta: “Gênero de insetos himenópteros da família dos cavadores” e “Gênero de plantas da família das orquídeas, composto de várias espécies, todas herbáceas, de flores quase solitárias, ordinariamente esverdinhadas”.

A orquídea verde que desata o nó cego do labirinto já se encontrava inscrita no próprio ser do inseto cavador; o ato de cavar o espaço claustrofóbico “sem alarme” (sem Mallarmé, sem poesia), pode ser lido como metáfora do poeta que constrói seu ponto de fuga: a flor que fura o asfalto, a orquídea antieuclidiana que rompe com seu mistério a razão do labirinto é a materialização de uma libertadora dimensão estética. O portal que dá acesso a essa dimensão não se abre por magia, mas pelo cultivo de uma flor cuja semente está em nós: a sensibilidade que nos permite interagir com o belo, ainda que em meio ao horror, seja fruindo uma canção, seja deixando-se fluir em um poema.

Fotomontagem de Julien Pacaud

História – Música – Som. Pensando através do que se ouve

Por Juliana S. de Lima e Victoria Tupini Pereira

Resumo: O presente artigo visa trazer uma reflexão teórica sobre a música e a paisagem sonora como fonte de pesquisas, produtora, geradora e mediadora de conhecimento. Por isso, a importância de dar enfoques a novas perspectivas da história, seja através da música, paisagem sonora, ou de outras manifestações que rompam com uma ótica universalista e eurocêntrica. Como metodologia interdisciplinar, serão utilizados métodos qualitativos para obtenção de informações a respeito da territorialidade da música e dos sons, em suas dimensões estruturantes, onde através das epistemologias críticas, a música e o som se tornam protagonistas da análise.

Palavras chave: Estudos Interdisciplinares – Paisagem Sonora – Música – Epistemologias críticas

“A música está no mundo, e falar sobre ela é falar sobre um tempo e lugar específicos. Além de carregar significados, também produz significado.” (TEPERMAN, Ricardo, 2015, p.9) O artigo vai de encontro com a perspectiva de uma História descolonial, entendendo que esta se encontra em seu processo de construção. Partimos da análise de que a História, baseada em preceitos modernos e, portanto, com suas teorias e métodos articulados a partir de contexto Europeu, por vezes ignora e não subsidia contextos fora do eixo Norte, onde o Sul é visto como lugar de trabalho e não de articulador de conhecimento. Contudo, quando observamos ao nosso redor e saímos dos muros acadêmicos, nos deparamos com diversas práticas e saberes não hegemônicos que confluem para lidarmos com o mundo, com a natureza, a sociabilidade e que nos fazem questionar sobre os saberes científicos não estarem no topo de uma pirâmide do conhecimento, mas sim, que dialoga com demais saberes de maneira interdisciplinar.

Um exemplo disso, é o caso que trataremos a seguir em relação à música e os sons. A interdisciplinaridade entra como base bibliográfica e metodológica importantes para compreender os processos que ainda serão trilhados. Com o desafio de construção de uma ciência que vivencia uma ecologia dos saberes (SOUZA SANTOS, 2009), onde a hierarquia científica é questionada, o artigo entra como proposta crítica a História evolucionista, eurocêntrica, positivista e cartesiana e que encontra na racionalidade e na cultura letrada instrumentos de manutenção de poder. Além disso, o conceito de “Escrevivência”, cunhado pela escritora e professora Conceição Evaristo (2016) nos auxiliou de maneira significativa na elaboração deste artigo. O conceito de paisagem sonora foi desenvolvido pelo pesquisador Murray Schafer entre as décadas de 1960-70. Para ele, a paisagem sonora é “qualquer campo de estudo acústico” (1997, p. 23), ou seja, ao pesquisar música, ondas sonoras, ou o ruído dos ventos chacoalhando as árvores, estamos refletindo sobre a paisagem sonora.

Isso abrange uma gama de produções teóricas que ao se articularem em rede, desenvolvem estudos interdisciplinares no campo da sonoridade. Seja no campo das ciências exatas, com a acústica e as propriedades físicas do som – ondas -; na sociedade e a relação som, sujeito, territorialidade, ou nas artes, com a música criadora de paisagem sonora, o som, ao se articular com o território, se torna capaz de representar o espaço, assim como a imagem. Como coloca o historiador Luiz Antônio Simas “As ruas são de Exu, o morador das encruzilhadas, lugar em que não há fixidez. Mas Exu não mora só na encruza: ele tem a artimanha também de morar no som de um assovio ou nos desenhos de um surdo de terceira no meio da bateria de uma escola de samba” (SIMAS, Luiz Antonio. p. 25, 2020) Percebendo a ausência de trabalhos nesse campo do conhecimento nasce nosso questionamento. Mesmo a História sempre passando por constantes mudanças na sua forma de perceber e analisar a relação do ser humano no tempo, a forma que esta mesma é escrita, continua centrada no modelo ocidental.

O perigo de uma história única, contada apenas por vencedores, que, baseado em fontes estritamente escritas, por vezes apaga e ignora um campo da vida substancial, como a oralidade e a subjetividade. A música e os sons aqui são compreendidos como uma alternativa de formação de um discurso não hegemônico. Para compor ao debate trataremos de abordar o som e a música como um possível e sensível caminho metodológico que, ao se articular com epistemologias críticas, é capaz de trazer à tona experiências históricas e sociais sincrônicas e diacrônicas, de denúncia e subversão, que pelo movimento das ondas, chega até nós de forma a compelir uma gama de experiências e vivências coletivas.

Em Tambores, rádio e videoclipes: sobre paisagem sonora, territórios e multiculturalidade, o geógrafo Marcos Alberto Torres (2011) discute como as ondas sonoras atuam no espaço, articulando com conceitos como multiculturalidade, território e paisagem. Torres relata que o tambor, como produtor sonoro, foi utilizado de diferentes formas a depender da comunidade. No Japão rural, os taikós (tambores) e suas ondas tinham a função de demarcar o território e as fronteiras físicas, limitando-o de acordo com o espaço em que fosse audível o som dos tambores” (2011, p. 70). Enquanto em religiões de África e suas vertentes brasileiras, o tambor demarca o território do sagrado, reafirmando identidades (2011, p. 70-71). Com o avanço tecnológico, a possibilidade da escuta gravada auxilia nossa compreensão do som que se passou. Além das histórias contadas pelos mais velhos, guardiões de memória, soma-se os fonogramas, fitas cassete, CDs, na busca histórica de compreender o passado. Dito isso, vemos a importância das pesquisas que, através do som, ruído, da música, entre outras formas de paisagem sonora orgânica – do cotidiano, sem necessidade de mediações técnicas -, um forte elemento de construção do lugar social, de territorialidades, identidades e sujeitos.

Para Mehdi Eugene Ahmed Zaoug, em sua tese El Espacio desde el Paisaje Sonoro: Caso de la Plaza Grande de Quito (2016), “todo lugar ocupado por seres vivos leva a práticas sonoras e que, em certos casos, estas práticas são condicionantes para a existência de território” (p. 7). Desta forma, a música, entendida como uma produção técnica, oferece uma rica perspectiva multidimensional e multiescalar que revela importantes elementos da relação de produção, apropriação e poder no espaço, nos fornece dados da realidade em uma narrativa artística impregnada de ideologia, representações ideológicas e experiências sócio-espaciais que acompanham o seu espaço-tempo específicos. O espaço sonoro, como um espaço inteiro, é vivido, produzido e reproduzido cotidianamente, um lugar de conhecimento e múltiplo em suas dinâmicas. Mayra Patricia Estévez Trujillo, em sua tese Estudos sonoros en y desde América Latina (2016), ao pesquisar estudos sonoros na região andina, busca conhecer práticas de experiências com som que estão para além da reprodutibilidade sonora moderna/coloniais. Para Trujillo, a dimensão sonora é um campo de tensões pela luta dos significados, tece espaços e sociabilidades. A autora propõe o som marginal driblando o antropocentrismo e a linearidade como lógica organizadora, em oposição ao som de produção hegemônica.

Um caso importante que podemos aqui tratar é o do Rap, como um fenômeno cultural diaspórico majoritariamente urbano, que vem cada vez mais se mostrando uma ferramenta de leitura da realidade, e que se caracteriza como um veículo da insatisfação dos que compartilham e se identificam com o movimento, com base em questões políticas conscientes que denunciam as injúrias sociais. Afinal, toda música/obra pode ser vista como um produto do próprio sujeito que a elaborou, e das condições que os permeiam. Vejamos o exemplo da rapper Kaê Guajajara, que traz em sua letra aqui exemplificada, uma série de provocações e denúncias, recorrendo ao contato com sua ancestralidade, a história de seu povo e as práticas capitalistas de apropriação da natureza, abordagens como preconceito, e problemas sofridos pelo povo indígena, e suas resistências. Que comida você come, senão a que eu dou? Abra a sua mente antes da sua boca É o Brasil que ninguém vê O Agro não é tech, não é pop e também mata Vestem rosa ou azul com as mãos manchadas de vermelho Vejo meus filhos se perguntando se você os mata ou se Eles se matam, se você os mata ou se eles matam primeiro. Você não sabe, ninguém viu. Mas ficou cravado na minha memória Pega no laço e você sabe a história: legalizam o genocídio. Chamam de pardos para embranquecer, enfraquecer e desestruturar você, pra não saber de onde veio. (GUAJAJARA, Kaê. Mãos Vermelhas. Gravadora – 2020 – 3min16seg)

O contexto que Kaê Guajajara apresenta é um desdobramento de práticas históricas. Analisando em partes observamos diversas críticas que se encontram na denúncia a uma exploração da terra e legalização de genocídios, além do processo eugenista de embranquecimento. Também está presente no trecho da música a crítica ao agronegócio, que vem devastando diversas comunidades indígenas e a natureza. Quando a rapper coloca “Pega no laço e você sabe a história” traz o recorte de gênero das mulheres que foram pegas no laço, no sentido mais cruel e brutal da frase, forçadas a viver culturas que não são suas, forçadas a viverem uma vida que não escolheram, tendo como base as estruturas patriarcais, brancas, eurocêntricas, falocêntricas e capitalista. Conclusão Como coloca Viviane Vedana, em seu texto Paisagem sonora e antropologia urbana: um ensaio sobre as sonoridades da cidade (2010), a cidade é um objeto temporal, palco e resultado de práticas.

O som então, também é território, pois nele percebe-se características e marcos sonoros capazes de singularizar o ambiente. O contrário também acontece, sons tão comuns que nossos ouvidos adormecem. Neste artigo, trouxemos a ideia de se compreender o som a partir do eixo Sul-Sul, onde as histórias se interconectam. Com esta perspectiva, o som pode ser visto como um subversor de lógicas dominantes, desmontando a linha cartesiana de pensamento e questionando a exportação de teorias e práticas. São reflexões que não se findam aqui, mas esperamos ter contribuído para elucidar essa interação entre histórias, músicas e sons, compreendendo esses elementos como narradores do tempo e espaço em que são produzidas, colaborando para o entendimento das dinâmicas e transformações e das vivências inseridas no espaço. Ao analisar e propor pesquisas vinculadas ao som marginal ou a paisagem sonora orgânica, adentramos um giro descolonial, interdisciplinar e epistemológico, não apenas nas fontes e referências que trazem a investigação, mas como a investigação se propõe a ser construída.

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Juliana Simões de Lima
Mestranda no Programa de Pós Graduação em Geografia – UFF; Licenciada em História pelo Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da UFF. Atualmente possui pesquisa com ênfase no Hip – Hop, assunto que envolve toda trajetória de pesquisa acadêmica.

Referências:

GUAJAJARA, Kaê. Mãos Vermelhas. 2020 – 3min16seg.

PERMAN, Ricardo. Se liga no som: as transformações do rap no Brasil – 1ªed. São Paulo : Claro Enigma. 2015.

SANTOS, Boaventura de Souza. Para além do pensamento abissal: Das linhas globais a uma ecologia de saberes. In.: Epistemologias do Sul. 2009.

SCHAFER, Murray. A Afinação do Mundo: Uma exploração pioneira pela história passada e pelo atual estado do mais negligenciado aspecto do nosso ambiente: a paisagem sonora. Trad. Marisa Fonterrada. São Paulo: Editora UNESP, 2001.

TORRES, Marcos Aurélio. Tambores, rádios e videoclipes: Sobre paisagens sonoras, territórios e multiterritorialidades. 2011.

TRUJILLO, Mayra Patricia Estévez. Estudios sonoros en y desde Latinoamérica: del régimen colonial de la sonoridad a las sonoridades de la sanación. Tese de doutorado em Estudos Culturais Latinoamericanos. Universidade Andina Simón Bolívar. Quito, 2016.

VALERO, Francisco Rodriguez. Construcción de las identidades latino-americanas. Una aproximación desde el entorno sonoro. Temas de nuestra América. Vol. 33 nº 61. Universidad Nacional de Costa Rica. 2016.

ZAOUG, Mehdi Eugene Ahmed. El espacio desde el paisaje sonoro: Caso de la Plaza Grande de Quito. Dissertação em Estudos Urbanos. Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales, Guatemala: FLACSO. Abril, 2016.